Arquivo de dezembro, 2008

Estamira

Publicado: dezembro 30, 2008 em Cinema


Dilacerada por uma sociedade doente,e classificada como “louca”,a sábia Estamira mostra que está mas lúcida do que nunca.Estamira deve ser ouvida,vista,pensada e relembrada,como um “Astro” positivo que ilumina-se em meio ao um”Lixão”.

Premiado no mundo inteiro Estamira mostra sua visão sobre a vida,dita como “louca” pelo seus filhos,ela eleva-se ao próprio discurso,e revela-se como uma “sábia feiticeira”.Estamira precisa ser escutada.

Selecionei este belo texto que encontrei pela Internet a fora.

Texto escrito por Gabriel Martins,fontes no final.

“O estado de falsidade do ser humano é algo fascinante. Vem de uma necessidade de adaptação quase biológica, de comportamentos sociais arraigados, influenciados em menor ou maior quantidade pela mídia, política, “instinto de sobrevivência” ou até mesmo impulsos sexuais. Freud explica? Talvez seja da natureza da contemporaneidade a paixão pela imagem e pelo superficial; seja da perfeição da “linda vizinha” ao “amigo leal”, conceitos criados pelo Homem que nos conduzem no dia a dia e nos dizem que o importante são as relações cultivadas, por mais falsas que sejam. Para mim, Estamira, de Marcos Prado, é sobre isso. Estamira é enxergada e tratada – não só moralmente, mas fisicamente – como louca. Marcos Prado vai nos mostrar que a loucura é assim como tudo, um ponto de vista, no caso dela, um ponto de vista comum entre várias pessoas e que eu, concordando com o dele, discordo.

Estamira é uma mulher que trabalha (e trata isso com orgulho) em um lixão. É antes de tudo alguém que já sofreu diversos abusos e possui um olhar peculiar sobre a vida. Ela se irrita quando o assunto é Deus e se diz sábia, mostrando uma postura que pode ser facilmente confundida com arrogância. Não é. Estamira é um “lugar”, uma idéia, um estado de espírito onde o ser humano pode ser mais autêntico. É alheia ao mundo (o mundo dito “são”) e assim tenta estudá-lo, e por mais que o olhar fechado de fora tente trazê-la para o “real” (é preciso dar remédio a quem “sai da linha”?), o lado inconsciente continua martelando quase como um demônio trazendo de volta discursos embolados que fazem todo sentido. É a manifestação de um interior furioso nascido de um passado infeliz e sofrido, que somado a uma boa dose de “determinismo”, transforma Estamira na figura que é.

O lixão é a representação irônica e trágica da própria condição do homem. Para um olhar raso, é meramente uma imagem de contexto social de pobreza, mas para o grão do super-8 de Marcos Prado, é o lugar onde talvez se encontre a sua própria essência. A idéia de sobrevivência de Estamira nos lembra do quanto nos apegamos ao desnecessário, e como a sensação de prazer trazida por este nos tornou quase escravos do imediato. É a paixão pela imagem já dita antes, que nos torna um bando de desconhecidos buscando impressões sedutoras e fantásticas. Será preciso perdermos tudo (materialmente falando) para poder nos encontrarmos?

Estamira tem 3 filhas e um filho, todos bem criados e que guardam imenso amor por ela, apesar de alguns deles (especialmente o filho) divergir de opinião e enxergá-la com um olhar moldado por forte religiosidade, um ponto de vista claramente antagônico ao da mãe. Para ele, assim como para muitos brasileiros, a religião e a figura de Deus são conceitos intocáveis, tornando a visão “radical” de Estamira inaceitável. Fica claro que ele a enxerga como louca, apesar de o amor de filho ainda se mostrar presente. Estamira é como um desconforto, aquela pessoa que talvez o filho não quer que as pessoas vejam, principalmente nos seus acessos de raiva. Ainda assim, é interessante ver como as filhas (duas delas criadas longe de Estamira) conseguem enxergar a beleza dentro desse dragão furioso, um sentimento que pode vir a ser uma saudade ou um olhar do jovem de cabeça aberta, interessado em escutar um pouco. Estamira quer ser ouvida, algo que ela provavelmente não foi durante a vida toda. É um acúmulo de frustrações que trazem à tona pensamentos tão honestos e nervosos que para o ouvido desatento soa apenas como delírio. É outra coisa que o filme nos lembra: precisamos escutar mais. E Estamira vai repetir as suas idéias e neologismos até conseguir ser tratada com o respeito que merece, sem a definição pré-conceituosa de louca, velha e pobre. A voz de Estamira é uma resposta à negligência social que cometemos dia-a-dia: sabemos dessa crua realidade pois vemos todos os dias no jornal, mas é muito mais confortável pensar no churrasco de domingo, na promoção, no emprego e no novo celular . É o lixo que vira descuido.

Visualmente, Estamira é uma encenação real do apocalipse. É o sol que se mistura com o fogo, com o grão, com o lixo, resto e descuido. É um filme pintado pela natureza, no caso, a humana. É uma arte do descartado, e os outros trabalhadores do lixão fazem parte desse cenário ativo e invasor, que preferimos esquecer. O plano final do filme é um daqueles momentos em que a natureza conspira a favor do cinema, não só encerrando a orquestra do Fim, como ilustrando ali mesmo tudo que foi dito e que está preso na cabeça de Estamira, esta simples humana com algo a dizer.”

Fonte:http://www.cinemaemcena.com.br/estamira/blog.asp

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Capitu

Publicado: dezembro 24, 2008 em Cinema

Voilá!És Arte!

A microssérie dirigida por Luiz Fernando Carvalho (O Reino da Pedra) é se não magnífica,esplêndida!
Com contraste de cenas e ambientes “plásticos” ao estilo “Tim Burton Tupiniquim” esta minissérie retrata toda a obra “Dom Casmurro” de Machado de Assis,autor atemporal que é com certeza se não o maior,uns dos maiores autores que já existiu!

Ao assistir o primeiro episódio os telespectadores logo se familiarizam com o cenário,que ao logo da obra é quase o mesmo,ao principio destaca-se a imagem “pesada” e surreal dos ambientes e dos atores, mostrando um contraste entre o “velho” e o “moderno” que contextualiza a obra de Machado de Assis como algo que foge ao seu tempo e consequentemente pode ser exposto,mesmo que em uma adaptação,à qualquer cenário temporal.
A minissérie é exibida em 5 capítulos e mostra desde o tempo de infância de Bentinho e Capitu até o percorrer da estória onde já adultos se casam.Os segmentos de textos e a estruturas chegam a ser fiel à obra literária,dando mais fascínio a todos aqueles que a leram.Destaque à trilha sonora que vai desde do Rock Pop,com a linda e lírica “Elephant Gun” da banda Beirut,até a clássica “Iron Man” do Black Sabbath.Destaque também aos atores,como Michel Melamed que interpretou o Dom Casmurro em uma atuação apaixonante,e a bela Letícia Persiles que interpretou a Capitu quando jovem.
Enfim a série se transformou em uma verdadeira obra de arte,que leva-nos a momento de sonhos e sentimentos dignos de ser apreciados!

Assista pelo YouTube Capitu:
Capítulo 1 : Parte 1 | Parte 2 | Parte 3 | Parte 4 | Parte 5
Capítulo 2 : Parte 1 | Parte 2 | Parte 3 | Parte 4 | Parte 5
Capítulo 3 : Parte 1 | Parte 2 | Parte 3 | Parte 4 |
Capítulo 4 : Parte 1 | Parte 2 | Parte 3 | Parte 4 | Parte 5
Capítulo 5 : Parte 1 | Parte 2 | Parte 3 | Parte 4 | Parte 5 | Parte 6 | Parte 7

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Carlos Castaneda

Publicado: dezembro 24, 2008 em Antropologia

Artigo da revista “Mente e Cérebro” sobre o “o homem só e sem pátria” Carlos Castaneda,que escreveu “A erva da Diabo” relatando experiências xamãnicas sobe uso de plantas alucinógenas mediadas através de um feiticeiro (DonJuan).Trecho de uma entrevista(das poucas que fez)publicada em 1975 para a revista veja:

VEJA – De que modo as drogas serviam de instrumento auxiliar aos ensinamentos de Don Juan?
CASTANEDA – O mundo como nós o vemos é apenas uma descrição, e cada item da descrição é uma unidade, o que eu chamo de “gloss” (aparência externa”) Uma árvore é um gloss, um quarto ou uma sala são glosses. Nós colocamos significado ao gloss-quarto como sento a reunião de pequenos glosses – cama, cadeira, camiseira, armário. A realidade do consenso é formada por uma corrente infinita de glosses, os quais, por sua vez são formados e interligados por pequenos glosses. Esta corrente forma, na nossa realidade, um sentido comum, isto é, esta corrente de glosses tem que fluir em uma direção pré-concebida que nós chamamos com senso ou sentido comum. Para quebrar ou interromper a corrente, o bruxo usa drogas que criam um espaço vazio na corrente, implantando uma nova direção, a direção do sentido comum ou do bom senso da realidade não ordinária (realidade da bruxaria). Sentido comum e bom senso estão diretamente ligados ao nosso corpo. Com o uso de drogas, há uma interrupção no bom senso e abertura de uma nova direção, e essa nova direção só pode ser encontrada com um guia (bruxo), pois de outra forma o uso de tais drogas é sem valor. O homem geralmente tem a idéia de gozar a vida através dos vícios. Um viciado é uma criança profissional. Interromper a corrente de glosses, parar o mundo, com o uso de drogas só pelo prazer de interromper, só pode causar dano, além de ser uma brincadeira cujo preço é caro. Uma vez que o corpo aprendeu a interromper a corrente, não há mais necessidade de auxílio para tal interrupção. A pessoa interrompe pela própria vontade.

Experiências de estranhamento
Depois de 40 anos do lançamento de A erva do diabo, primeiro livro de Carlos Castaneda – e após um década de sua morte – se mantêm as controvérsias sobre realidade e ficção em sua obra.

Há 40 anos, um livro publicado pela editora da Universidade da Califórnia relatando pesquisas antropológicas de um estudante da instituição, dividiu opiniões e desdobrou-se para outros campos como psicologia, psiquiatria, filosofia e literatura, ainda hoje causando impacto no que aprendemos a reconhecer como realidade. The teachings of don Juan (Os ensinamentos de d. Juan) foi publicado em algumas traduções – incluindo a brasileira – como A erva do diabo, o que pode ter contribuído para aumentar as vendas numa época em que uma diversidade de drogas literalmente fazia a cabeça de muita gente. Mas certamente a escolha do título teve seu preço e contribuiu para multiplicar controvérsias sobre o conteúdo da obra.

O autor do livro, o antropólogo Carlos Castaneda, pode ser brasileiro – falava português com acento inconfundível para um pretenso dissimulador – ainda que tenha omitido este dado em pouquíssimas entrevistas, quando também se recusou a ser fotografado. Esse comportamento – á primeira vista bizarro, levando em conta e que se espera de um autor que entra nas listas de sucesso – é parte inseparável do conteúdo de seus livros. Na seqüência desse primeiro vieram outros 11 volumes, até a morte de Castaneda há 10 anos – em 27 de abril de 1998. Nessa coletânea ele relata os ensinamentos que diz ter obtido de um velho índio yaqui que havia encontrado pela primeira vez em fins de junho de 1961, na fronteira entre o Arizona, nos Estados Unidos, e Sonora, no México. Castaneda fazia pesquisas de campo com plantas medicinais.

The teachings of don Juan foi recebido com certo entusiasmo pelo antropólogo Edward Holland Spicer (1906-1983), da Universidade do Arizona, reconhecido como o maior especialista na história e cultura dos yaquis de Sonora e do deserto que se estende a sudoeste, avançando em direção a Sierra Madre Ocidental, próximo à costa do Pacífico. Spicer publicou seu artigo na American Anthropologist, porta-voz da American Anthropological Association.

Spicer diz que os relatos não estabelecem relação significativa entre o que ele conhece dos yaquis e d. Juan – que Castaneda aponta como seu mentor. Mas elogia o livro e faz, pela primeira vez, a consideração que ainda hoje divide opiniões: o antropólogo, de fato, passou por todas as experiências que reproduz ou é um escritor de extraordinário talento, capaz de criar um universo repleto de histórias fantásticas?

ESTÉTICA LITERÁRIA

Apenas dois meses depois do artigo de Spicer, a quase sempre corrosiva New York Review of Books publicou um artigo do especialista inglês em antropologia cultural Edmund Ronald Leach (1910-1989), professor da Universidade de Cambridge. Na avaliação de Leach, o que Castaneda viveu foi apenas “uma experiência pessoal incomum”. Ainda que tenha se rendido às considerações filosóficas atribuídas a d. Juan, Leach considera o livro mais um trabalho literário que científico, ou, mais especificamente, “menos de etnografia e mais de estética literária”.

Entre Spicer e Leach, Walter Rochs- Goldschmidt – professor-emérito da Universidade da Califórnia e ex-presidente da American Anthropological Association – defende uma terceira posição. Segundo Gold-schmidt, que escreve o prefácio do primeiro livro, os relatos de Castaneda (com a consciência alterada pelo uso de plantas alucinógenas – peiote, datura e cogumelos coletados no deserto ou em Sierra Madre) – “não são uma simples narrativa de experiências alucinógenas”. Para ele, “as sutis manifestações de d. Juan conduzem o viajante, enquanto suas interpretações dão significado ao fato e nós, por intermédio do aprendiz de feiticeiro, temos a oportunidade de experimentar”.

Como antropólogo, Goldschmidt defende o funcionalismo comparativo, idéia de que uma comparação entre culturas leva em conta funções universais de costumes e instituições, em busca de sistemas sociais, em vez de expressões próprias e específicas de cada uma dessas instâncias. Assim, para ele, conseqüentemente “o mundo tem definições diversas em diversos lugares”. Goldschmidt argumenta que isso não significa apenas que os povos tenham costumes e deuses diferentes e esperem destinos diversos após a morte. O que ocorre, sustenta, é que “os mundos dos povos diferentes têm diferentes formas e os próprios pressupostos metafísicos variam: o espaço não se conforma com a geometria euclidiana, o tempo não constitui um fluxo contínuo de sentido único, as causas não se conformam com a lógica aristotélica, o homem não se diferencia do não-homem, nem a vida da morte, como no nosso mundo”.

Goldschmidt defende ainda que “conhecemos alguma coisa da forma desses outros mundos pela lógica dos idiomas nativos e pelos mitos e cerimônias, conforme registrados pelos antropólogos”. E ele considera que “d. Juan nos mostrou vislumbres do mundo de um feiticeiro yaqui e, como o vemos sob influência de substâncias alucinógenas, o captamos com uma realidade totalmente diversa daquelas outras fontes”. Nisso, considera, está a principal virtude do trabalho de Castaneda: afirmar com razão que “este mundo [exposto por d. Juan] com todas as diferenças de percepção, tem sua lógica interna”. Para ele, Castaneda procurou fornecer explicações dessa lógica desde o interior desse estranho mundo.

LIMITAÇÕES CULTURAIS

O fato de Castaneda não ter tido sucesso completo nesse empreendimento, na interpretação de Gold-schmidt deve-se a uma limitação que nossa cultura e nossa língua impõem sobre a percepção, e não a uma limitação pessoal do pesquisador/autor. Ainda assim, considera, “em seus esforços, ele [Castaneda] funde o mundo de um feiticeiro yaqui com o nosso, o mundo da realidade não-convencional com o mundo da realidade convencional”.

Na visão de Goldschmidt, “a importância primordial de penetrar mundos que não sejam os nossos – e conseqüentemente da própria antropologia – está no fato de que essa experiência nos leva a compreender que o nosso próprio mundo é um complexo cultural”. Experimentando outros mundos, compara, “vemos o nosso como ele é e assim também podemos ver, de relance, como deve ser o mundo verdadeiro, aquele situado entre o nosso próprio complexo cultural e aqueles outros mundos; daí a alegoria, como a própria etnografia”.

Para Goldschmidt, a sabedoria e poesia de d. Juan e a habilidade e poesia de Castaneda “fornecem uma visão de nós mesmos e da realidade e, como em todas as boas alegorias, o que se vê está com o expectador e dispensa interpretação”. O antropólogo considera ainda que temos uma dívida para com Castaneda, “por sua paciência, coragem e perspicácia ao procurar e enfrentar os desafios de seu duplo aprendizado, e por nos relatar os detalhes de suas experiências”. Isso lhe confere, avalia, “a habilidade essencial da boa etnografia – a capacidade de ingressar num mundo estranho”.

EXPOSIÇÃO DIDÁTICA

No 30º aniversário do lançamento de A erva do diabo e às vésperas de sua morte, Carlos Castaneda se ocupou de preparar um resumo para facilitar a compreensão do que expõe como os fundamentos do aprendizado sob tutela de seu mentor. De acordo com suas palavras, “a descrição irredutível do que fiz em campo seria dizer que o índio yaqui feiticeiro, d. Juan Matus, me introduziu à cognição dos xamãs do México antigo”. Por cognição ele conceitua um conjunto de processos envolvidos com a percepção do cotidiano, o que inclui memória, experiência, consciência e utilização de qualquer sintaxe, como recurso de conexão lógica.

Castaneda revela que justamente a idéia de cognição, num primeiro momento, foi seu maior obstáculo, pois, “como homem ocidental e erudito participava da idéia de que só existe cognição como um grupo de processos gerais”. Acrescenta, no entanto, que para seu mentor existe tanto a cognição do homem moderno como a dos xamãs do México antigo, sendo cada um deles mundos completos de vida cotidiana e intrinsecamente diferentes. Nesse contexto, revela que, a partir de um momento, que não consegue identificar precisamente, sua tarefa “mudou de mera coleta de dados antropológicos para a internalização de novos processos cognitivos”.

Como parte desses processos cognitivos, Castaneda relata que foi levado a aceitar a idéia de que é fundamental, para os seres humanos, compreender que o único fato que realmente importa é o que d. Juan chamou de “encontro com o infinito”. E isso ainda que seu próprio mentor tivesse dificuldades para reduzir essa expressão a algo mais inteligível. Ainda assim, como parte de seu aprendizado, ele diz ter aceitado o fato de que “somos seres a caminho da morte”, mesmo que isso não tenha qualquer relação com o conceito mórbido com que a morte é interpretada na cultura ocidental. Se vamos morrer – e essa é a única certeza de que dispomos – conclui Castaneda sob a lógica da cognição que incorporava, “a verdadeira luta do homem não é a disputa com seus semelhantes, mas com o infinito, o que não chega a ser luta, mas aquiescência”. Devemos voluntariamente nos submeter ao infinito “porque nossas vidas terminam exatamente onde se originaram: no infinito”, considera.

Carlos Castaneda mostra ainda que a maior parte dos processos que registrou em uma dúzia de livros, relatando cada etapa de seu aprendizado, esteve relacionada ao “intercâmbio natural de minha personalidade, de um ser socializado sob o impacto de novas racionalizações” e que, após certo tempo, suas resistências foram minadas.

O alicerce da cognição para os xamãs, segundo Castaneda, é o “fato energético”, o que significa que, para eles [os xamãs] “cada nuance do cosmos é uma expressão de energia”. Eles concebem que “o cosmos inteiro é composto de forças gêmeas que são, ao mesmo tempo, opostas e complementares: a energia animada e inanimada”. A energia inanimada, nesta concepção, não tem consciência. Castaneda define consciência como “condição vibratória da energia animada”. A condição essencial da energia animada – orgânica ou inorgânica – segundo a linhagem de xamãs de seu mentor “é transformar a energia do universo como um todo em dados sensoriais”. No caso dos seres orgânicos, “esses dados sensoriais são transformados em um sistema de interpretação no qual a energia como um todo é classificada e há uma resposta designada para cada classificação, qualquer uma que possa ser”. Em contrapartida, para os seres inorgânicos, “os dados sensoriais devem ser interpretados por eles mesmos em qualquer que seja a forma incompreensível na qual possam fazê-lo”.

OVO DE LUZ

Castaneda sustenta em suas descrições que os seres humanos são percebidos pelos xamãs da linhagem de seu mentor como “conglomerados de campos de energia com a aparência de bolas luminosas”, e cada uma delas está “individualmente conectada a uma massa energética de proporções inconcebíveis que existe no universo, chamada mar escuro de consciência”. Um ponto específico, na altura das omoplatas, destaca-se nesse ovo luminoso, descreve Castaneda, e esse é o ponto de aglutinação. Segundo ele, o deslocamento desse ponto por onde os seres humanos recebem energia cósmica é o responsável pela alteração do padrão de consciência.

Outra categoria que emerge neste contexto, no quadro de ensinamentos que recebeu de seu mentor, é o intento, algo que ele define como equivalente a inteligência. Assim, a conclusão que integra o mundo cognitivo do seu sistema de aprendizado é a de um “universo de suprema inteligência”. Ainda neste caso, Castaneda esclarece que xamãs da linhagem de seu mentor, d. Juan Matus, “consideram consciência como o ato de estar deliberadamente consciente de todas as possibilidades perceptivas do homem e não apenas das possibilidades perceptivas ditadas por qualquer determinada cultura, cujo papel parece ser o de restringir a capacidade perceptiva de seus membros”.

Ao longo dos últimos 40 anos em que a obra de Castaneda foi publicada – ele assegura que a publicação é parte de suas tarefas para se tornar um homem de conhecimento, e não uma forma de exposição pessoal, daí o contato restrito com a imprensa e a recusa em ser fotografado –, as mais diferentes personalidades se envolveram com ela de diferentes formas. O cineasta italiano Federico Fellini foi uma delas, como registra em Block-Notes di um Regista.

No capítulo “Viaggio a Tulun” Fellini, interessado num filme sobre Castaneda, relata em detalhes o encontro/desencontro que teve com o personagem que buscou e expressa sua convicção de que nele há algo mais além da habilidade literária destacada por Spicer e Leach.

EGOCENTRISMO INFANTIL

Ao longo de sua vida Castaneda concedeu raríssimas entrevistas – uma delas à revista americana Time, outra à Psycolo-gy Today e, em 1975, falou à revista Veja, edição 356, por meio de um estudante brasileiro, então bolsista na Universidade da Califórnia, Luiz André Kossobudzki. Num diálogo com perguntas e respostas publicadas nas tradicionais páginas amarelas da revista, Castaneda explicou sua postura reservada e as razões para se comportar dessa maneira. Disse que atribuir importância a si próprio torna a pessoa tão imatura quanto uma criança: “O ser incompleto nasce da incessante procura por reconhecimento social.”

Nessa entrevista procurou definir uma série de outros conceitos herméticos em seus escritos e condena enfaticamente o uso de drogas, alegando que a administração de psicotrópicos, no início de seu aprendizado foi parte de um método e nada mais que isso. Castaneda assegurou, ainda, que uma pessoa considerada psicótica na realidade em que vivemos, no universo dos xamãs a que pertence seu mentor seria apenas alguém que “interrompeu a corrente do bom senso [elos que nos prenderiam a esta realidade] e não conseguiu encontrar o caminho de volta”. Para sair da realidade a que estamos confinados, segundo Castaneda, é necessário contar com a ajuda de um guia. Sem esse auxílio “eu não seria capaz de encontrar o caminho de volta a esta realidade”, ressaltou.

Castaneda se referiu ainda a uma capacidade de utilizar os sonhos como exercício de domínio e controle da própria vontade no percurso de se tornar um homem de conhecimento, aprendizado descrito em Porta para o infinito – quarto de seus 12 livros. Para Castaneda, a arte de sonhar exige “o mesmo domínio da vontade para sair e voltar da realidade ordinária”. Ele declara: “Com d. Juan aprendi a deixar de ser criança profissional e me tornei um guerreiro. Ficar sentado, esperando que me dessem tudo, ou sonhando acordado com a glória de minha auto-importância, não me trouxe nada. Tive de ir procurar coragem e disciplina”.

Entrevista Completa para a revista Veja 1975 nº356 : Clique Aqui
Fonte : http://www2.uol.com.br/vivermente/reportagens/experiencias_de_estranhamento.html

Sigur Ros – Glósóli

Publicado: dezembro 16, 2008 em Música

Você está em um sonho. As cores já não correspondem mais à realidade. As pessoas falam em uma língua estranha, praticamente incompreensível. Elfos, vikings e vulcões se espalham por entre florestas de gelo e gêiseres. O frio toma conta do lugar, mas junto de uma estranha alegria, uma alegria melancólica, e uma esperança indestrutível, capaz de causar sorrisos e lágrimas.
É uma sucessão de viagens que duram entre seis e dez minutos, recheada de guitarras tocadas com arcos de violino, baterias a 10bpm, cordas e teclados esparsos, vocais etéreos e melodias belas, impressionantemente belas. Cada uma das canções parece ter sido feita por um artesão, trabalhando cada detalhe mínimo de sua obra sozinho, em um quarto isolado do mundo.

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Hfndy dhajn jdhue, jkgut gsbdh htyr ndhsjakoeuir nchgtrgd. Gahsnfgfyrmllalqpe nfkskua, jdnfhmznahjdnfj. Qhdnfhanyruei ma, nue jfnsdhmsiwuemnf, hansghdh.

Sonhos de AKIRA KUROSAWA

Publicado: dezembro 2, 2008 em Cinema

No quinto conto, “Corvos”, um jovem pintor, ao observar as pinturas de Van Gogh, entra dentro dos quadros e se encontra com o pintor, que indaga por qual razão ele não está pintando se a paisagem é incrível, pois isto o motiva a pintar de forma frenética.Este pequeno trecho do filme “Sonhos”, nos faz repensar a “Arte de Ver”, como diz Rubem Alves em seu famoso texto: “A Complicada Arte de Ver” – Aqui: http://pensandozen.blogspot.com/2008/

No último conto de “SONHOS” (Akira Kurosawa), um viajante chega a uma pequena aldeia, e conversa com um velho habitante. Choca-se com o fato de a aldeia não possuir energia elétrica. “Mas a noite é tão escura”, ele observa. “Sim, a noite tem de ser assim. Por que a noite deveria ser clara como o dia? Eu não gostaria de não conseguir ver as estrelas à noite”. E prossegue: “Hoje em dia, as pessoas se esquecem de que elas são só uma parte da natureza. Destroem a natureza, da qual nossa vida depende”.

O filme trata também das tradições, e da importância de mantê-las, para a nossa própria sobrevivência e do planeta. Aborda a sabedoria dos mais velhos, e a simplicidade como forma de viver bem, em harmonia, sem destruição.

Com esse último sonho, após vermos o horror em imagens pungentes, Kurosawa nos leva de volta a um passado que também existe, ainda, em nosso inconsciente coletivo, com lições prontas a serem resgatadas hoje, e que podem evitar que os piores pesadelos de nossa civilização se tornem realidade.