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A experiência com Ayahuasca

Publicado: fevereiro 13, 2011 em Antropologia
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Quando cheguei à fazenda em uma manhã de domingo, o clima era calmo, rústico e limpo. A mata se estendia em plano, com troncos grandes e tortos fincados à sua relva, com esterco e flores bebendo de seu solo. O coreto central apoiava-se em grandes colunas feitas de troncos de grandes árvores, que mantinham suas seivas, mesmo longe do solo, pelas forças sepulcrais ali estacionadas. O verniz pincelado nos pilares quase se tornou a própria matéria prima da natureza, de tão nítido e reluzente que estava; o piso de argila era frio, porém confortável, como que querendo moldar-se aos pés que cintilavam descalços.

Nossos sacos-de-dormir foram colocados ao chão e as frutas que levávamos na mochila foram postas na mesa. Eu olhava as pessoas, – que eram umas trintas – dividas entre homens e mulheres, cada qual ao seu lado do coreto (o ritual deve ser dividido em duas metades de sexos opostos) respeitando os olhares mútuos. Na época eu era uma espécie de Hippie-intelectual, ou pelo menos me vestia e me comportava como se fosse um, assim, minha barba comprida e meus cabelos oleosos tornavam minha identidade um pouco mais rústica e desapegada. Meu interesse, logo após nos colocarmos em nossos lugares para começar o ritual, deu lugar ao medo, e na fila para beber o “liquido sagrado” quase desisti. Mas a vontade foi mais persistente, e fez com que eu engolisse o liquido escuro como se fosse um trago de Whisky dose anos, porém o  gosto era  forte e me lembrava à terra.

Sentei ao solo e comecei a me concentrar na “viagem psicodélica” à qual estava embarcando. Os 15 primeiros minutos foram de ansiedade, uma sensação de que algo se manifestava no meu estômago, foi quando “bateu”. A princípio pensei que ia perder completamente o controle de mim mesmo, a tontura fez me levantar e me apoiar em algum tronco por perto, a visão estava borrada e os sentidos perturbados. Este mal  estar durou pouco, mas foi o suficiente para que um jato de vômito se esculpisse da minha boca, como a água que saí de um hidrante de rua logo após aberta suas comportas, assim, vomitei silenciosamente na mata, sozinho. Tal foi a força e intensidade do mal estar, que precisei, ali mesmo na mata, sentar-me e fechar os olhos.

Talvez tudo na natureza sejam apenas estímulos, lapsos e energia em constante movimento, assim, do mal estar, em um lapso de segundo, surgiu a razão como que me dizendo para aceitar meu estado e seguir em frente. A visão se tornou clara e as cores ganharam vida, respirei profundamente e pude sentir cada músculo e cada célula minha tragando o ar, como se cada respiração tivesse a nítida consciência de ser a essência  vital do universo. Os pensamentos e a ordenação do meu estado foram nítidos, e constatei então que ali, na mata e naquele instante eu iria desfechar uma batalha intensa com minhas múltiplas personalidades. A começar pela própria contradição do termo.

Senti meu cérebro sendo esculpido com uma talhadeira invisível, formando um bloco perfeitamente simétrico, como diamante, forte e brilhante. A iluminação foi só um termo que os homens criaram para descrever sua história, ao contrário, a razão é pura e, portanto, intuitiva do espírito. Esta intuição é uma analogia concreta, que se move entre o real e a irrealidade, um fluxo de contradições necessárias para o entendimento do ser. Nada pode passar despercebido entre as míseras das coisas, pois tudo está em perfeita simetria com as condições própria da vida. O destino é a fluidez dos acasos.

Admitir que a contradição do mundo seja sua própria condição me fez esclarecer certos pontos do meu cotidiano.Voltei ao salão principal do coreto, sentei nitidamente tranquilo apoiando as costas em um pilar de madeira e, novamente fechei os olhos. As imagens foram aparecendo a princípio sem lógica, me focava em algumas delas e lembrava casos distantes da minha memória, agora tão vivas como um retroprojetor de rolos antigos da nossa infância. Desenhei-me e concluí minha caricatura.

Desta primeira passagem, devem ter-se passado duas ou três horas, minha capacidade de raciocínio estava afiada, indo das coisas mais naturais até suas condições religiosas e espirituais. Quando todos levantaram e tomaram outro copo de Ayahuasca. Foi primeiramente neste instante, quando notei o quão estranho era o ritual; havia padres ditando orações; havia música xamânica, música católica, e outras, uma verdadeira salada musical ditando o ritmo; pessoas deitadas em colchões, outras estirada em cadeiras de praia, outras dançando ou simplesmente acompanhando o ritmo com os pés, sempre com um mútuo respeito e silêncio entre todos. Após ingerir novamente o liquido, o gosto me pareceu mais amargo. Fomos para o centro do salão, e ali se comportava uma fogueira, reluzente em todo o ritual, sendo controlada e amada pelo seu condutor; um fogo domesticado e que, porém, nos domesticava.

O ritual se tornou mais solene, e as pessoas ficaram mais agitadas – o que talvez fosse o caso para que os condutores nos levassem a uma caminhada na mata. Seguindo a trilha tive que vomitar novamente, mais intensamente. O engraçado é que após o vômito não há mal-estar e nem perda de fluidez da Ayahuasca, dizem que tal reação é a própria densidade espiritual da bebida e, que isto faz com que seu espírito seja completamente limpo. Mitos e verdades à parte. Ao chegar a um pico, muito simbólico por sinal, com apenas uma grande árvore em seu topo, magistral e reluzente, entreguei-me à sua beleza e a sua potencia, e deitei ao seu encalço desenhando as próximas visões. Minha sensibilidade estava à flor da pele, e senti por um segundo ou menos, aquilo que os filósofos gregos, e que os religiosos católicos romanos, e que os espíritas e xamanistas dizem ser a alma; o espírito que todos possuem. Este espírito saiu do meu corpo e vagou naturalmente sobre os galhos da magistral árvore, a sensação não poderia ser outra; estava experimentando a morte. Mesmo que por segundos, não houve a racionalidade e nem pensamentos, somente a  entrega e  a sensação de morrer. E este foi o clímax da “viagem”, o ápice, como se estivesse entre a vida e a morte, pendurado a uma fina linha de seda. Incrivelmente dancei sobre a linha, me pendurando e virando piruetas.

Passei longo tempo em paz, observado as coisas mais simples e refletindo nas coisas mais banais. Oh, minúsculo este lugar da paz, que se esconde em cada canto de todas as coisas! Sortudos são aqueles que conseguem encontrá-la, religiosos, macumbeiros, espíritas, todos ao final estarão sempre à sua procura, encontrando-a e desencontrando-a. Todos esbarram nela, africanos, chineses, ingleses, brasileiros, não há um ser humano que não esbarre na paz. Alguns a repelem e empurram-na com toda força, outros a abraçam, e no final todos seguem suas vidas à espera do próximo encontro harmonioso com a verdadeira pedra filosofal dos delfos; a paz.

O ritual com Ayahuasca é considerado um ritual religioso e, portanto, é parte integrante de uma cultura, cultura esta vasta e complexa. No entanto a religião não chega a ser algo realmente concreto no ritual, visto que todos ali presentes seguem diferentes dogmas religiosos, tendo em comum a fé na ayahuasca. Desta perspectiva fica nítido que é a própria bebida é o ser mágico e concreto do rito. Considerando todos os princípios objetivos do ritual, como sendo a bebida o ser mágico e as pessoas bebem este ser, concluí-se que se incorpora o sagrado na hora da ingestão desta, assim, o homem tem dentro de si a manifestação religiosa e a partir somente deste momento intuitivo o ritual ou a “viajem” passa a ter um caráter real e objetivo livre de qualquer dogma religioso, apenas respeitando as regras ritualísticas. Uma verdadeira experiência subjetiva, que se regula com as normas objetivas da vida, não é à toa que a Ayahuasca e seu ritual são feito desde tempos imemoriais, sempre se multiplicando em diferentes correntes e níveis religiosos.

Terence Mckenna

Publicado: fevereiro 26, 2009 em Antropologia

Terence McKenna (1946-2000) , autor, explorador e cientista norte-americano, passou o último quarto de século da sua vida estudando das bases ontológicas do xamanismo e da etnofarmacologia da transformação espiritual. Mckenna, fundador da Teoria da Novidade( um ramo da dinâmica fractal), formou-se em Ecologia, conservação de Recursos e Xamanismo pela Universidade da Califórnia em Berkeley, EUA. Após a formatura, viajou extensamente pelos trópicos asiáticos e do Novo Mundo, especializando-se no xamanismo e etnomedicina da bacia amazónica. com o irmão, Dennis, é autor de the Invisible Landscape(1975) e Psilocybin: The Magic Mushroom Grower´s Guide(1976).(Wiikipédia)


Sociedade Psicodélica

Terence McKenna

Baseado em uma fala dada em um encontro da ARUPA
no Instituto Esalen em junho de 1984.

Eu quero falar esta noite a respeito da noção de uma sociedade psicodélica. Quando eu falei em Santa Bárbara em uma conferência sobre psicodélicos em maio de 1983 minhas lentes de contato falharam em um ponto crítico na minha leitura e eu simplesmente tive que improvisar. Mais tarde quando eu ouvi a fita da gravação eu ouvi a frase “sociedade psicodélica.” Eu nunca usei este termo conscientemente em uma conversa. Mas porque eu havia dito, e porque havia acontecido uma ressonância através das pessoas que estavam lá, eu comecei a pensar sobre isso e esta noite irei especular sobre o que isto pode significar para nós.

Quando eu penso em sociedade psicodélica, esta noção implica em criar uma sociedade que vive à luz do Mistério da Existência. Em outras palavras, problemas e soluções deveríam ser retiradas de seu papel central nas organizações sociais, e Mistérios – Mistérios irredutíveis – deveriam estar em seu lugar. Nos anos 20 o entomologista britânico J.B.S. Haldane disse em um ensaio, “O universo pode não ser apenas mais estranho como supomos; ele pode ser mais estranho do que nós podemos supor.”

Eu sugiro que assim como nós olhamos para trás em cada ápice da civilização na história humana – seja ela Maia, ou Greco-Romana, ou a Dinastia Sung – temos acreditado que isso aconteceu graças à posse de uma descrição apurada do cosmos e da relação do homem com ele. Isto parece ir junto com o completo florescimento de uma civilização. Mas, a partir deste ponto de vista da nossa presente civilização, nós consideramos todas estas concepções como se fossem piores, de segunda mão. Nós nos orgulhamos que nossa civilização tem a última e real descrição sobre o que está acontecendo.

Eu considero isto um erro, e que atualmente nos cega, ou torna nosso progresso histórico muito difícil, é nossa falta de atenção que nossas crenças se tornaram obsoletas e deveríam ser colocadas de lado. Uma sociedade psicodélica abandonaria os sistemas de crenças pela experiência direta. É o que eu penso a respeito a do problema do dilema moderno: a experiência direta foi descontada, e no seu lugar todos os tipos de sistemas de crença foram criados.

Eu preferiria um tipo de anarquia intelectual onde não importa o quê fosse pragmaticamente aplicável e fosse trazido de qualquer situação; onde crença fosse entendida como uma função auto-limitante. Porque, veja, se você acredita em alguma coisa você é automaticamente impedido a acreditar em seu oposto; que significa que um grau da liberdade humana foi coisificada no ato de se submeter à esta crença.

Eu insisto que é supérfluo ter crenças, porque o universo é realmente mais estranho do que nós supomos, precisamos retornar para o que no século XVI era chamado de método Baconiano; que não significa a elaboração fantástica de construções de pensamentos que explicam a natureza, mas somente uma catalogação dos fenômenos que nós experimentamos. Redes de computadores e drogas psicodélicas e a crescente disponibilidade de informação no mundo têm tornado possível a evolução de novos estados de informação que nunca existiram anteriormente. Estamos processando estas novas oportunidades em uma razão muito devagar porque estamos sendo impedidos pela ideologia.

Os modelos Freudianos e Junguianos enxergam a experiência psicodélica como um desmantelamento da resistência em revelar emoções, motivos e sistemas de crenças escondidas e complexas. Esta noção, há cinco ou dez anos, foi substituída pelo modelo de experiência alucinógena xamânica. Este modelo sustenta que pessoas arcaicas têm delegado membros especiais de uma sociedade para provar informações de domínio secreto usando drogas psicodélicas. A informação extraída destes domínios são então usadas para guiar e direcionar a sociedade.

Eu estou interessado neste segundo modelo. Tenho gastado algum tempo na Amazônia e estou familiarizado com os mecanismos operacionais do xamanismo e personalidades xamânicas. Acredito que a experiência psicodélica vai além da instituição do xamanismo. Estamos diante de uma oportunidade única de arremessar de lado a crise da cultura mundial.

Nossa habilidade de destruir a nós mesmos é a imagem espelhada da capacidade de nos salvarmos. O que está faltando é uma visão clara do quê deveria ser feito. O que deveria ser feito certamente não é a acumulação cada vez maior de arsenal termonuclear ou a promoção de todo o tipo espetáculos de primatas – que Tim Leary tem muito bem denunciado. O que precisa ser feito é que nossas concepções ontológicas fundamentais de realidade precisam ser refeitas. Precisamos de uma nova linguagem, de modo que para ter uma nova linguagem precisamos de uma nova realidade. É um tipo de equação urobórica, ou uma situação de desvencilhamento. Uma nova realidade gerará uma nova linguagem. Uma nova linguagem fará uma nova realidade se legitimar e ser uma parte desta realidade.

As substâncias psicodélicas podem ser imaginadas como pontos de uma grade de informações. Elas provêm novas perspectivas na realidade, e quando você reconecta todos os pontos de vista que você coletou considerando realidade, então um modelo aplicável de realidade e que faça sentido começa a surgir.

Eu penso que esta realidade aplicável e que faça sentido – o que Wittgenstein nomeou algo como “suficientemente verdadeiro” – é o que estamos procurando. O “suficientemente verdadeiro” mapeando por cima da teoria é o que estanos procurando, mas a experiência deve ser feita primeiro. A linguagem do Eu deve ser feita primeiro.

O que eu estou defendendo é que cada um de nós tome responsabilidade pela transformação cultural, que não é algo que seria disseminado de cima para baixo. É algo que cada um de nós podemos contribuir nos esforçando a viver tão para dentro do futuro quanto possível. Devemos nos livrar das concepções de anos 40, 50, 60, 70, 80, 90. Devemos transcender o momento histórico e tornarmos exemplares de humanidade no Fim do Tempo.

Alguns de vocês que acompanham minha leitura esta tarde se preocupam em saber que eu acredito que liberação – ou vamos dizer “decência” – como uma qualidade humana e antecipação deste estado perfeito da humanidade futura. Podemos ter vontade de aperfeiçoar o futuro nos tornando um microcosmo do futuro perfeito, não mais distribuir culpa para instituições ou hierarquias de responsabilidade ou controle, mas dar-nos conta que a oportunidade está aqui, a responsabilidade está aqui, e os dois nunca se tornem congruentes denovo. A salvação para o nosso espírito imortal depende do quê você faz com as oportunidades que a vida lhe dá.

Então, o que faremos com a oportunidade? O quê significa dizer, em termos operacionais, “Viva tão longe ao futuro quanto puder?” Significa tomar uma posição vís à vis da emergente realidade hiper-dimensional. Isto não significa necessariamente tornar-se um usuário de drogas psicodélicas; mas significa admitir esta possibilidade. Se você sente um potencial heróico dentro de você para ser um dos experimentadores – um dos pioneiros – então você sabe o que fazer. Se por outro lado você se sente perdido no abismo – se você se sente como William Blake chamou de “caindo para a eterna morte,” caindo do espiral da existência que conecta uma encarnação à outra – então oriente-se para a experiência psicodélica como uma fonte de informação.

Uma imagem espelhada da experiência psicodélica emergiu com o hardware e software integrados às redes de computadores. A internet e a www são, paradoxalmente suficientes, uma profunda influência feminilizante na sociedade. Isto está no desenvolvimento de hardware/software que inconscientemente está se tornando consciente. Esse é um pensamento que tomamos do bon mot platônico – “Se Deus não existisse, o homem deveria inventá-lo” – e disse, “se a inconsciência não existe, a humanidade a inventará na forma de vastas redes que serão capazes de transferir e transformar informação.”

Isto é, de fato, onde estamos presos: a transformação de informação. Nós não mudamos fisicamente nos últimos quarenta mil anos. O tipo humano está bem estabilizado antes do fim da última glaciação. Mudanças que foram feitas antigamente no âmbito biológico está acontecendo agora no âmbito cultural. Estamos abrigando presunções culturais e nos preocupando com nossa visão do mistério unitário em uma razão cada vez mais rápida, enquanto tentamos nos acomodar ao desdobrameno daquele mistério que se deita diante de nós no tempo. Este é o processo que está fundindo a vasta sombra de destruição por cima de toda a experiência da história humana.

Anterior à nossa própria era, a única palavra que poderia ser aplicada para esta força que faz as pessoas se unirem, causando nascimento e morte, levantando e derrubando civilizações, era Deus; e isso era imaginado como uma forna auto-consciente que estava aprendendo a respeito do mundo como um gato aprende a respeito do aquário e fazendo as coisas acontecerem. Agora temos uma noção diferente – a noção de um sistema vetor que força uma grande área que está sendo empurrada para um espaço muito pequeno, e este pequeno micro-setor de tempo/espaço é a história. É um ímpeto que os budistas chamam de “o reino densamente empacotado,” um reino onde os opostos estão unificados.

A história é este reino onde o corpo é finalmente interiorizado e a mente exteriorizada. Penso a mente como um órgão da quarta dimensão no nosso corpo. Você não pode vê-lo porque ele está na quarta dimensão, mas você experimenta uma baixa dimensão seccionando-a no fenômeno da consciência. Mas isto é somente uma secção parcial. assim como uma elipse é um desenho parcial de um cone.

O crescimento dos sistemas de informação é somente um reflexo do hardware masculino do que já existe na natureza como um fato. Agora nos resta afiar nossas intuições e nos tornarmos atentos a este sistema preexistente e ligá-lo para que possamos estar um passo a frente dos dualismos que nos separam dos outros e do mundo. Precisamos nos dar conta que há um enxame de genes – e não um grupo de espécies – no planeta; que metade do tempo você está pensando no que está escutando; que idéias são criaturas notavelmente escorregadias que são difíceis de traçar sua origem; e que estamos realmente no mano-a-mano e todos juntos em uma dimensão que não é tão acessível e sólida como você desejaria que fosse (como Joyce comenta em Finnegan’s Wake).

Os psicodélicos são o red-hot, a edição social/ética porque eles são agente descondicionadores. Eles levantarão dúvidas se você é um rabino ortodoxo, um antropólogo marxista, ou um homem de altar porque o seu negócio é dissolver sistemas de crenças. Eles fazem isso muito bem, e depois eles deixam você com uma ferida na experiência, o que William James chamou – tomando uma experiência infantil – “uma confusão florida, barulhenta.”

Fora isso você reconstrói o mundo e precisa entender que esta reconstrução é um diálogo onde suas decisões – a projeção de sua gramática no espaço intelectual em sua frente – irá formar um gel sobre o ser. Nós todos criamos nosso próprio universo porque estamos todos operando com a nossa própria linguagem privada que são somente traduzíveis através da linguagem de outra pessoa. Há ainda um análogo físico a isto que irá promover um reforço desta noção de separação e nossa singularidade.

A imagem do mundo que se forma em seus olhos é feita de fótons. Fótons são minúsculos pacotes de luz tão próximas que podem ser pensadas como partículas. Isto significa que cada fóton que toca o fundo dos seus olhos é diferente dos fótons que tocam o fundo dos olhos de qualquer outra pessoa. Isto significa que eu me baseio em uma seção do mundo 100% diferente da imagem que qualquer um de vocês estão se baseando. E ainda estamos sentados aqui com uma suposição ingênua de que nossas imagens do mundo diferem somente pela nossa perspectiva dentro do espaço desta sala.

Temos inúmeras suposições ingênuas como esta construção do nosso pensamento. Nosso mecanismo explanatório mais venerado – tal como “ciência” – surge também como nosso mecanismo explanatório mais velho. Portanto, eles têm se construídos como a mais ingênua e não-examinada suposição. “Ciência”, por exemplo, podemos demolir em trinta segundos. A “ciência” diz a você um grupo de condições que criará um efeito dado, e a cada momento que o grupo de condições estiver em seu lugar o efeito será obtido. O único lugar que isto acontece é dentro de um laboratório. Nossa experiência não é assim. O contato com uma pessoa é sempre diferente. A experiência de fazer sexo, comer uma refeição, tomar um ônibus – isto penetra no ser – e torna suportável de todo jeito. A “ciência” ainda deseja dizer a você que somente o valor das coisas descritas em um fenômeno podem ser disparadamente repeditas. Isto se dá porque estes são somente os fenômenos que a ciência pode descrever, e é o nome do jogo com o qual ela se preocupa.

Mas nós temos que reivindicar nossa liberdade – tomar vantagem do abismo minúsculo entre o imenso abismo do desconhecimento; seja talvez a morte, ou reencarnação, ou transições para outras formas de vida. Estas coisas nós não sabemos ou entendemos, mas no momento que somos humanos temos a rara oportunidade de descobri-las. E eu tenho fé de que isto é possível – em algum lugar ou em algum momento. Talvez nenhum progresso seria feito até a nona hora em que a realidade pudesse ser literalmente fragmentada em pedaços, para além do ponto de reconstrução.

Existe, definitivamente, uma tendência anti humanista em todos os sistemas, Ludwig von Bertalanfe, que foi o inventor da teoria dos sistemas gerais, disse, “pessoas não são máquinas, mas em toda situação que elas tiverem a oportunidade, elas irão agir como uma.” Estamos todos caindo em padrões. Nós seguramos estes padrôes cada vez mais forte. Eles não podem ser violados; e isto acontece no nível das idéias.

Estamos agora no crista da onda da história, em tipo de aperto que nos devolve ao passado. Espero que tenhamos chegado ao fim desta fase. Queira você comprar minha visão apocaliptica transformadora envolvendo 2012, ou queira você dizer que somente por olhar ao seu redor você tem certeza que, logo, logo, a merda vai ser atirada ao ventilador, eu acho que nós concordamos que estamos diante de um impasse. O que está para acontecer será ou um grande deslocamento da biosfera, causando uma invalidação da inteligência como uma adptação biológica e nossa extinção; ou iremos nos tornar – como James Joyce sonhou – “o homem auto governável;” em outras palavras, a exteriorização do espírito e a interiorização do corpo.

Neste processo, tudo terá de ser desafiado. Toda a noção de humanidade será desafiada. Estamos à beira da manipulação do DNA, ou de tomar controle da forma humana, de sermos capazes de extender a noção de arte para dentro do corpo humano. Somos clássicos? Deveríamos ser Adonis e Perséfone? Ou o que somos nós? Somos surrealistas? Deveria eu ser uma batata ou uma girafa em chamas? Estas são questões que terão de ser enfrentadas. Eu sorrio enquanto falo isto, mas estas questões são importantes.

E a noção de ganho vertical que vemos nas metáforas feitas em relação à experiência psicodélica: expansão da consciência, ficar chapado (getting high – a tradução seria “elevar-se”), viagem psicodélica, vôo xamânico. É como se os alucinógenos fossem o feminino, o software, o formador, o cabo condutor do que está ocorrendo. Seguindo por trás vem o hardware, a mentalidade construtora masculina.

Isto irá continuar até que o cabo condutor das longas distâncias da engenharia contrutora se rompa. Esta é a crença xamânica: que nós podemos encontrar uma maneira de usar químicos em nossos corpos, usar nossas vozes, nossos pensamentos e nossas mãos por sobre nós e sobre os outros; para tranformar nós mesmos sem nenhuma tecnologia; para nos movermos no reino da imaginação com uma tecnologia psicofarmacológica interiorizada que nos liberte dentro da nossa imaginação.

Ao mesmo tempo isto está acontecendo com a mentalidade construtora masculina, que irá colocar sociedades humanas na órbita da terra/lua e em planetas próximos. Mas há um porém para a mentalidade construtora, que é um vácuo que envolve os planetas e exemplifica este abismo e o elemento feminino. É o mistério da Mama matrix de Finnegan’s Wake. A misteriosa Mama matrix é o universo, e não há como escapar deste fato. Mas eu penso que a mentalidade construtora, que irá tentar transformar o homem em suas máquinas será desestabilizado pelos psicodélicos, pelo pensamento voltado ao planeta, pelo lado voltado à imaginação de nossa consciência, que irá criar as bases para o casamento espiritual que será a incubação química de um novo formato da humanidade; e isto não está longe.

Não pode estar longe. Esta é uma responsabilidade inerente a todos nós que nos faz criá-la. Há uma obrigação definida para examinar as possibilidades de ação, e para pensar claramente sobre si e sobre o outro, sobre a linguagem e o mundo, sobre o passado e o presente. Por muito tempo nós vivemos em um mundo definido pela geografia. Se você nasceu na Índia, você achará que o cosmos é de uma maneira. Se você nasceu no Brooklyn, você achará de outra. Precisamos transcender estas grades do destino biológico, que nos torna aquilo que nós não queremos ser. Nós podemos clamar por este nível mais alto de liberdade através do simples ato de prestar atenção à existência.

Precisamos começar a exprimir nossas visões ideológicas antes que sejamos consumidores das próprias. Precisamos desligar a nossa TV interna que nos puxa para as suposições culturais ditadas pelo Pentágono, Madison Avenue, e pelo estado corporativo. Precisamos, ao invés disso, ligar nossos modems e começar a interagir como pessoas dotadas de mentalidade pelo mundo afora e estabelecer esta nova ordem intelectual que será a salvação da biosfera, eu acredito firmemente nisto. A internet finalmente concretiza nossa coletividade permitindo que pessoas sintam a interrelação de seus destinos; sentem a interrelação como uma coisa que transcende divisões nacionais, divisões ideológicas. A net permite que cada um de nós recupere a experiência de ser parte de uma família humana.

Nenhuma reconstrução de sociedade pode ser feita sem psicodélicos porquê nós perambulamos durante muito tempo sem eles. Certamente somos produtos de uma sociedade que foi longe demais sem psicodélicos como nenhuma outra cultura no mundo. Isto foi há dois mil anos desde que o Mistério foi real em Eleusis e nestes dois mil anos perambulamos longe na disfunção e na confusão. Mas nós somos filhos pródigos. Podemos reparar a idéia de xamanismo a partir do estase social pré-tecnológico e projetá-lo, aperfeiçoá-lo e viajar com ela para além das estrelas.

E se não fizermos, tudo estará perdido. Há somente riscos e comprometimentos nestas aspirações milenares e nestas metas culturais, metas que têm o potencial de restaurar o significado e a direção para nossa civilização. Se isto não for feito iremos fragmentar nossa oportunidade e deixar o horror e a destruição do típico cenário futuro.

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Anarquicamente copiado de:
FORTE, Robert. Entheogens And The Future Of Religion. San Francisco, CSP, 1997.

Humildemente traduzido por:
Waver

http://www.cogumelosmagicos.org
http://www.plantasenteogenas.org
Versão copyleft – idéias não têm dono. Espalhe a palavra.

Carlos Castaneda

Publicado: dezembro 24, 2008 em Antropologia

Artigo da revista “Mente e Cérebro” sobre o “o homem só e sem pátria” Carlos Castaneda,que escreveu “A erva da Diabo” relatando experiências xamãnicas sobe uso de plantas alucinógenas mediadas através de um feiticeiro (DonJuan).Trecho de uma entrevista(das poucas que fez)publicada em 1975 para a revista veja:

VEJA – De que modo as drogas serviam de instrumento auxiliar aos ensinamentos de Don Juan?
CASTANEDA – O mundo como nós o vemos é apenas uma descrição, e cada item da descrição é uma unidade, o que eu chamo de “gloss” (aparência externa”) Uma árvore é um gloss, um quarto ou uma sala são glosses. Nós colocamos significado ao gloss-quarto como sento a reunião de pequenos glosses – cama, cadeira, camiseira, armário. A realidade do consenso é formada por uma corrente infinita de glosses, os quais, por sua vez são formados e interligados por pequenos glosses. Esta corrente forma, na nossa realidade, um sentido comum, isto é, esta corrente de glosses tem que fluir em uma direção pré-concebida que nós chamamos com senso ou sentido comum. Para quebrar ou interromper a corrente, o bruxo usa drogas que criam um espaço vazio na corrente, implantando uma nova direção, a direção do sentido comum ou do bom senso da realidade não ordinária (realidade da bruxaria). Sentido comum e bom senso estão diretamente ligados ao nosso corpo. Com o uso de drogas, há uma interrupção no bom senso e abertura de uma nova direção, e essa nova direção só pode ser encontrada com um guia (bruxo), pois de outra forma o uso de tais drogas é sem valor. O homem geralmente tem a idéia de gozar a vida através dos vícios. Um viciado é uma criança profissional. Interromper a corrente de glosses, parar o mundo, com o uso de drogas só pelo prazer de interromper, só pode causar dano, além de ser uma brincadeira cujo preço é caro. Uma vez que o corpo aprendeu a interromper a corrente, não há mais necessidade de auxílio para tal interrupção. A pessoa interrompe pela própria vontade.

Experiências de estranhamento
Depois de 40 anos do lançamento de A erva do diabo, primeiro livro de Carlos Castaneda – e após um década de sua morte – se mantêm as controvérsias sobre realidade e ficção em sua obra.

Há 40 anos, um livro publicado pela editora da Universidade da Califórnia relatando pesquisas antropológicas de um estudante da instituição, dividiu opiniões e desdobrou-se para outros campos como psicologia, psiquiatria, filosofia e literatura, ainda hoje causando impacto no que aprendemos a reconhecer como realidade. The teachings of don Juan (Os ensinamentos de d. Juan) foi publicado em algumas traduções – incluindo a brasileira – como A erva do diabo, o que pode ter contribuído para aumentar as vendas numa época em que uma diversidade de drogas literalmente fazia a cabeça de muita gente. Mas certamente a escolha do título teve seu preço e contribuiu para multiplicar controvérsias sobre o conteúdo da obra.

O autor do livro, o antropólogo Carlos Castaneda, pode ser brasileiro – falava português com acento inconfundível para um pretenso dissimulador – ainda que tenha omitido este dado em pouquíssimas entrevistas, quando também se recusou a ser fotografado. Esse comportamento – á primeira vista bizarro, levando em conta e que se espera de um autor que entra nas listas de sucesso – é parte inseparável do conteúdo de seus livros. Na seqüência desse primeiro vieram outros 11 volumes, até a morte de Castaneda há 10 anos – em 27 de abril de 1998. Nessa coletânea ele relata os ensinamentos que diz ter obtido de um velho índio yaqui que havia encontrado pela primeira vez em fins de junho de 1961, na fronteira entre o Arizona, nos Estados Unidos, e Sonora, no México. Castaneda fazia pesquisas de campo com plantas medicinais.

The teachings of don Juan foi recebido com certo entusiasmo pelo antropólogo Edward Holland Spicer (1906-1983), da Universidade do Arizona, reconhecido como o maior especialista na história e cultura dos yaquis de Sonora e do deserto que se estende a sudoeste, avançando em direção a Sierra Madre Ocidental, próximo à costa do Pacífico. Spicer publicou seu artigo na American Anthropologist, porta-voz da American Anthropological Association.

Spicer diz que os relatos não estabelecem relação significativa entre o que ele conhece dos yaquis e d. Juan – que Castaneda aponta como seu mentor. Mas elogia o livro e faz, pela primeira vez, a consideração que ainda hoje divide opiniões: o antropólogo, de fato, passou por todas as experiências que reproduz ou é um escritor de extraordinário talento, capaz de criar um universo repleto de histórias fantásticas?

ESTÉTICA LITERÁRIA

Apenas dois meses depois do artigo de Spicer, a quase sempre corrosiva New York Review of Books publicou um artigo do especialista inglês em antropologia cultural Edmund Ronald Leach (1910-1989), professor da Universidade de Cambridge. Na avaliação de Leach, o que Castaneda viveu foi apenas “uma experiência pessoal incomum”. Ainda que tenha se rendido às considerações filosóficas atribuídas a d. Juan, Leach considera o livro mais um trabalho literário que científico, ou, mais especificamente, “menos de etnografia e mais de estética literária”.

Entre Spicer e Leach, Walter Rochs- Goldschmidt – professor-emérito da Universidade da Califórnia e ex-presidente da American Anthropological Association – defende uma terceira posição. Segundo Gold-schmidt, que escreve o prefácio do primeiro livro, os relatos de Castaneda (com a consciência alterada pelo uso de plantas alucinógenas – peiote, datura e cogumelos coletados no deserto ou em Sierra Madre) – “não são uma simples narrativa de experiências alucinógenas”. Para ele, “as sutis manifestações de d. Juan conduzem o viajante, enquanto suas interpretações dão significado ao fato e nós, por intermédio do aprendiz de feiticeiro, temos a oportunidade de experimentar”.

Como antropólogo, Goldschmidt defende o funcionalismo comparativo, idéia de que uma comparação entre culturas leva em conta funções universais de costumes e instituições, em busca de sistemas sociais, em vez de expressões próprias e específicas de cada uma dessas instâncias. Assim, para ele, conseqüentemente “o mundo tem definições diversas em diversos lugares”. Goldschmidt argumenta que isso não significa apenas que os povos tenham costumes e deuses diferentes e esperem destinos diversos após a morte. O que ocorre, sustenta, é que “os mundos dos povos diferentes têm diferentes formas e os próprios pressupostos metafísicos variam: o espaço não se conforma com a geometria euclidiana, o tempo não constitui um fluxo contínuo de sentido único, as causas não se conformam com a lógica aristotélica, o homem não se diferencia do não-homem, nem a vida da morte, como no nosso mundo”.

Goldschmidt defende ainda que “conhecemos alguma coisa da forma desses outros mundos pela lógica dos idiomas nativos e pelos mitos e cerimônias, conforme registrados pelos antropólogos”. E ele considera que “d. Juan nos mostrou vislumbres do mundo de um feiticeiro yaqui e, como o vemos sob influência de substâncias alucinógenas, o captamos com uma realidade totalmente diversa daquelas outras fontes”. Nisso, considera, está a principal virtude do trabalho de Castaneda: afirmar com razão que “este mundo [exposto por d. Juan] com todas as diferenças de percepção, tem sua lógica interna”. Para ele, Castaneda procurou fornecer explicações dessa lógica desde o interior desse estranho mundo.

LIMITAÇÕES CULTURAIS

O fato de Castaneda não ter tido sucesso completo nesse empreendimento, na interpretação de Gold-schmidt deve-se a uma limitação que nossa cultura e nossa língua impõem sobre a percepção, e não a uma limitação pessoal do pesquisador/autor. Ainda assim, considera, “em seus esforços, ele [Castaneda] funde o mundo de um feiticeiro yaqui com o nosso, o mundo da realidade não-convencional com o mundo da realidade convencional”.

Na visão de Goldschmidt, “a importância primordial de penetrar mundos que não sejam os nossos – e conseqüentemente da própria antropologia – está no fato de que essa experiência nos leva a compreender que o nosso próprio mundo é um complexo cultural”. Experimentando outros mundos, compara, “vemos o nosso como ele é e assim também podemos ver, de relance, como deve ser o mundo verdadeiro, aquele situado entre o nosso próprio complexo cultural e aqueles outros mundos; daí a alegoria, como a própria etnografia”.

Para Goldschmidt, a sabedoria e poesia de d. Juan e a habilidade e poesia de Castaneda “fornecem uma visão de nós mesmos e da realidade e, como em todas as boas alegorias, o que se vê está com o expectador e dispensa interpretação”. O antropólogo considera ainda que temos uma dívida para com Castaneda, “por sua paciência, coragem e perspicácia ao procurar e enfrentar os desafios de seu duplo aprendizado, e por nos relatar os detalhes de suas experiências”. Isso lhe confere, avalia, “a habilidade essencial da boa etnografia – a capacidade de ingressar num mundo estranho”.

EXPOSIÇÃO DIDÁTICA

No 30º aniversário do lançamento de A erva do diabo e às vésperas de sua morte, Carlos Castaneda se ocupou de preparar um resumo para facilitar a compreensão do que expõe como os fundamentos do aprendizado sob tutela de seu mentor. De acordo com suas palavras, “a descrição irredutível do que fiz em campo seria dizer que o índio yaqui feiticeiro, d. Juan Matus, me introduziu à cognição dos xamãs do México antigo”. Por cognição ele conceitua um conjunto de processos envolvidos com a percepção do cotidiano, o que inclui memória, experiência, consciência e utilização de qualquer sintaxe, como recurso de conexão lógica.

Castaneda revela que justamente a idéia de cognição, num primeiro momento, foi seu maior obstáculo, pois, “como homem ocidental e erudito participava da idéia de que só existe cognição como um grupo de processos gerais”. Acrescenta, no entanto, que para seu mentor existe tanto a cognição do homem moderno como a dos xamãs do México antigo, sendo cada um deles mundos completos de vida cotidiana e intrinsecamente diferentes. Nesse contexto, revela que, a partir de um momento, que não consegue identificar precisamente, sua tarefa “mudou de mera coleta de dados antropológicos para a internalização de novos processos cognitivos”.

Como parte desses processos cognitivos, Castaneda relata que foi levado a aceitar a idéia de que é fundamental, para os seres humanos, compreender que o único fato que realmente importa é o que d. Juan chamou de “encontro com o infinito”. E isso ainda que seu próprio mentor tivesse dificuldades para reduzir essa expressão a algo mais inteligível. Ainda assim, como parte de seu aprendizado, ele diz ter aceitado o fato de que “somos seres a caminho da morte”, mesmo que isso não tenha qualquer relação com o conceito mórbido com que a morte é interpretada na cultura ocidental. Se vamos morrer – e essa é a única certeza de que dispomos – conclui Castaneda sob a lógica da cognição que incorporava, “a verdadeira luta do homem não é a disputa com seus semelhantes, mas com o infinito, o que não chega a ser luta, mas aquiescência”. Devemos voluntariamente nos submeter ao infinito “porque nossas vidas terminam exatamente onde se originaram: no infinito”, considera.

Carlos Castaneda mostra ainda que a maior parte dos processos que registrou em uma dúzia de livros, relatando cada etapa de seu aprendizado, esteve relacionada ao “intercâmbio natural de minha personalidade, de um ser socializado sob o impacto de novas racionalizações” e que, após certo tempo, suas resistências foram minadas.

O alicerce da cognição para os xamãs, segundo Castaneda, é o “fato energético”, o que significa que, para eles [os xamãs] “cada nuance do cosmos é uma expressão de energia”. Eles concebem que “o cosmos inteiro é composto de forças gêmeas que são, ao mesmo tempo, opostas e complementares: a energia animada e inanimada”. A energia inanimada, nesta concepção, não tem consciência. Castaneda define consciência como “condição vibratória da energia animada”. A condição essencial da energia animada – orgânica ou inorgânica – segundo a linhagem de xamãs de seu mentor “é transformar a energia do universo como um todo em dados sensoriais”. No caso dos seres orgânicos, “esses dados sensoriais são transformados em um sistema de interpretação no qual a energia como um todo é classificada e há uma resposta designada para cada classificação, qualquer uma que possa ser”. Em contrapartida, para os seres inorgânicos, “os dados sensoriais devem ser interpretados por eles mesmos em qualquer que seja a forma incompreensível na qual possam fazê-lo”.

OVO DE LUZ

Castaneda sustenta em suas descrições que os seres humanos são percebidos pelos xamãs da linhagem de seu mentor como “conglomerados de campos de energia com a aparência de bolas luminosas”, e cada uma delas está “individualmente conectada a uma massa energética de proporções inconcebíveis que existe no universo, chamada mar escuro de consciência”. Um ponto específico, na altura das omoplatas, destaca-se nesse ovo luminoso, descreve Castaneda, e esse é o ponto de aglutinação. Segundo ele, o deslocamento desse ponto por onde os seres humanos recebem energia cósmica é o responsável pela alteração do padrão de consciência.

Outra categoria que emerge neste contexto, no quadro de ensinamentos que recebeu de seu mentor, é o intento, algo que ele define como equivalente a inteligência. Assim, a conclusão que integra o mundo cognitivo do seu sistema de aprendizado é a de um “universo de suprema inteligência”. Ainda neste caso, Castaneda esclarece que xamãs da linhagem de seu mentor, d. Juan Matus, “consideram consciência como o ato de estar deliberadamente consciente de todas as possibilidades perceptivas do homem e não apenas das possibilidades perceptivas ditadas por qualquer determinada cultura, cujo papel parece ser o de restringir a capacidade perceptiva de seus membros”.

Ao longo dos últimos 40 anos em que a obra de Castaneda foi publicada – ele assegura que a publicação é parte de suas tarefas para se tornar um homem de conhecimento, e não uma forma de exposição pessoal, daí o contato restrito com a imprensa e a recusa em ser fotografado –, as mais diferentes personalidades se envolveram com ela de diferentes formas. O cineasta italiano Federico Fellini foi uma delas, como registra em Block-Notes di um Regista.

No capítulo “Viaggio a Tulun” Fellini, interessado num filme sobre Castaneda, relata em detalhes o encontro/desencontro que teve com o personagem que buscou e expressa sua convicção de que nele há algo mais além da habilidade literária destacada por Spicer e Leach.

EGOCENTRISMO INFANTIL

Ao longo de sua vida Castaneda concedeu raríssimas entrevistas – uma delas à revista americana Time, outra à Psycolo-gy Today e, em 1975, falou à revista Veja, edição 356, por meio de um estudante brasileiro, então bolsista na Universidade da Califórnia, Luiz André Kossobudzki. Num diálogo com perguntas e respostas publicadas nas tradicionais páginas amarelas da revista, Castaneda explicou sua postura reservada e as razões para se comportar dessa maneira. Disse que atribuir importância a si próprio torna a pessoa tão imatura quanto uma criança: “O ser incompleto nasce da incessante procura por reconhecimento social.”

Nessa entrevista procurou definir uma série de outros conceitos herméticos em seus escritos e condena enfaticamente o uso de drogas, alegando que a administração de psicotrópicos, no início de seu aprendizado foi parte de um método e nada mais que isso. Castaneda assegurou, ainda, que uma pessoa considerada psicótica na realidade em que vivemos, no universo dos xamãs a que pertence seu mentor seria apenas alguém que “interrompeu a corrente do bom senso [elos que nos prenderiam a esta realidade] e não conseguiu encontrar o caminho de volta”. Para sair da realidade a que estamos confinados, segundo Castaneda, é necessário contar com a ajuda de um guia. Sem esse auxílio “eu não seria capaz de encontrar o caminho de volta a esta realidade”, ressaltou.

Castaneda se referiu ainda a uma capacidade de utilizar os sonhos como exercício de domínio e controle da própria vontade no percurso de se tornar um homem de conhecimento, aprendizado descrito em Porta para o infinito – quarto de seus 12 livros. Para Castaneda, a arte de sonhar exige “o mesmo domínio da vontade para sair e voltar da realidade ordinária”. Ele declara: “Com d. Juan aprendi a deixar de ser criança profissional e me tornei um guerreiro. Ficar sentado, esperando que me dessem tudo, ou sonhando acordado com a glória de minha auto-importância, não me trouxe nada. Tive de ir procurar coragem e disciplina”.

Entrevista Completa para a revista Veja 1975 nº356 : Clique Aqui
Fonte : http://www2.uol.com.br/vivermente/reportagens/experiencias_de_estranhamento.html