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A experiência com Ayahuasca

Publicado: fevereiro 13, 2011 em Antropologia
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Quando cheguei à fazenda em uma manhã de domingo, o clima era calmo, rústico e limpo. A mata se estendia em plano, com troncos grandes e tortos fincados à sua relva, com esterco e flores bebendo de seu solo. O coreto central apoiava-se em grandes colunas feitas de troncos de grandes árvores, que mantinham suas seivas, mesmo longe do solo, pelas forças sepulcrais ali estacionadas. O verniz pincelado nos pilares quase se tornou a própria matéria prima da natureza, de tão nítido e reluzente que estava; o piso de argila era frio, porém confortável, como que querendo moldar-se aos pés que cintilavam descalços.

Nossos sacos-de-dormir foram colocados ao chão e as frutas que levávamos na mochila foram postas na mesa. Eu olhava as pessoas, – que eram umas trintas – dividas entre homens e mulheres, cada qual ao seu lado do coreto (o ritual deve ser dividido em duas metades de sexos opostos) respeitando os olhares mútuos. Na época eu era uma espécie de Hippie-intelectual, ou pelo menos me vestia e me comportava como se fosse um, assim, minha barba comprida e meus cabelos oleosos tornavam minha identidade um pouco mais rústica e desapegada. Meu interesse, logo após nos colocarmos em nossos lugares para começar o ritual, deu lugar ao medo, e na fila para beber o “liquido sagrado” quase desisti. Mas a vontade foi mais persistente, e fez com que eu engolisse o liquido escuro como se fosse um trago de Whisky dose anos, porém o  gosto era  forte e me lembrava à terra.

Sentei ao solo e comecei a me concentrar na “viagem psicodélica” à qual estava embarcando. Os 15 primeiros minutos foram de ansiedade, uma sensação de que algo se manifestava no meu estômago, foi quando “bateu”. A princípio pensei que ia perder completamente o controle de mim mesmo, a tontura fez me levantar e me apoiar em algum tronco por perto, a visão estava borrada e os sentidos perturbados. Este mal  estar durou pouco, mas foi o suficiente para que um jato de vômito se esculpisse da minha boca, como a água que saí de um hidrante de rua logo após aberta suas comportas, assim, vomitei silenciosamente na mata, sozinho. Tal foi a força e intensidade do mal estar, que precisei, ali mesmo na mata, sentar-me e fechar os olhos.

Talvez tudo na natureza sejam apenas estímulos, lapsos e energia em constante movimento, assim, do mal estar, em um lapso de segundo, surgiu a razão como que me dizendo para aceitar meu estado e seguir em frente. A visão se tornou clara e as cores ganharam vida, respirei profundamente e pude sentir cada músculo e cada célula minha tragando o ar, como se cada respiração tivesse a nítida consciência de ser a essência  vital do universo. Os pensamentos e a ordenação do meu estado foram nítidos, e constatei então que ali, na mata e naquele instante eu iria desfechar uma batalha intensa com minhas múltiplas personalidades. A começar pela própria contradição do termo.

Senti meu cérebro sendo esculpido com uma talhadeira invisível, formando um bloco perfeitamente simétrico, como diamante, forte e brilhante. A iluminação foi só um termo que os homens criaram para descrever sua história, ao contrário, a razão é pura e, portanto, intuitiva do espírito. Esta intuição é uma analogia concreta, que se move entre o real e a irrealidade, um fluxo de contradições necessárias para o entendimento do ser. Nada pode passar despercebido entre as míseras das coisas, pois tudo está em perfeita simetria com as condições própria da vida. O destino é a fluidez dos acasos.

Admitir que a contradição do mundo seja sua própria condição me fez esclarecer certos pontos do meu cotidiano.Voltei ao salão principal do coreto, sentei nitidamente tranquilo apoiando as costas em um pilar de madeira e, novamente fechei os olhos. As imagens foram aparecendo a princípio sem lógica, me focava em algumas delas e lembrava casos distantes da minha memória, agora tão vivas como um retroprojetor de rolos antigos da nossa infância. Desenhei-me e concluí minha caricatura.

Desta primeira passagem, devem ter-se passado duas ou três horas, minha capacidade de raciocínio estava afiada, indo das coisas mais naturais até suas condições religiosas e espirituais. Quando todos levantaram e tomaram outro copo de Ayahuasca. Foi primeiramente neste instante, quando notei o quão estranho era o ritual; havia padres ditando orações; havia música xamânica, música católica, e outras, uma verdadeira salada musical ditando o ritmo; pessoas deitadas em colchões, outras estirada em cadeiras de praia, outras dançando ou simplesmente acompanhando o ritmo com os pés, sempre com um mútuo respeito e silêncio entre todos. Após ingerir novamente o liquido, o gosto me pareceu mais amargo. Fomos para o centro do salão, e ali se comportava uma fogueira, reluzente em todo o ritual, sendo controlada e amada pelo seu condutor; um fogo domesticado e que, porém, nos domesticava.

O ritual se tornou mais solene, e as pessoas ficaram mais agitadas – o que talvez fosse o caso para que os condutores nos levassem a uma caminhada na mata. Seguindo a trilha tive que vomitar novamente, mais intensamente. O engraçado é que após o vômito não há mal-estar e nem perda de fluidez da Ayahuasca, dizem que tal reação é a própria densidade espiritual da bebida e, que isto faz com que seu espírito seja completamente limpo. Mitos e verdades à parte. Ao chegar a um pico, muito simbólico por sinal, com apenas uma grande árvore em seu topo, magistral e reluzente, entreguei-me à sua beleza e a sua potencia, e deitei ao seu encalço desenhando as próximas visões. Minha sensibilidade estava à flor da pele, e senti por um segundo ou menos, aquilo que os filósofos gregos, e que os religiosos católicos romanos, e que os espíritas e xamanistas dizem ser a alma; o espírito que todos possuem. Este espírito saiu do meu corpo e vagou naturalmente sobre os galhos da magistral árvore, a sensação não poderia ser outra; estava experimentando a morte. Mesmo que por segundos, não houve a racionalidade e nem pensamentos, somente a  entrega e  a sensação de morrer. E este foi o clímax da “viagem”, o ápice, como se estivesse entre a vida e a morte, pendurado a uma fina linha de seda. Incrivelmente dancei sobre a linha, me pendurando e virando piruetas.

Passei longo tempo em paz, observado as coisas mais simples e refletindo nas coisas mais banais. Oh, minúsculo este lugar da paz, que se esconde em cada canto de todas as coisas! Sortudos são aqueles que conseguem encontrá-la, religiosos, macumbeiros, espíritas, todos ao final estarão sempre à sua procura, encontrando-a e desencontrando-a. Todos esbarram nela, africanos, chineses, ingleses, brasileiros, não há um ser humano que não esbarre na paz. Alguns a repelem e empurram-na com toda força, outros a abraçam, e no final todos seguem suas vidas à espera do próximo encontro harmonioso com a verdadeira pedra filosofal dos delfos; a paz.

O ritual com Ayahuasca é considerado um ritual religioso e, portanto, é parte integrante de uma cultura, cultura esta vasta e complexa. No entanto a religião não chega a ser algo realmente concreto no ritual, visto que todos ali presentes seguem diferentes dogmas religiosos, tendo em comum a fé na ayahuasca. Desta perspectiva fica nítido que é a própria bebida é o ser mágico e concreto do rito. Considerando todos os princípios objetivos do ritual, como sendo a bebida o ser mágico e as pessoas bebem este ser, concluí-se que se incorpora o sagrado na hora da ingestão desta, assim, o homem tem dentro de si a manifestação religiosa e a partir somente deste momento intuitivo o ritual ou a “viajem” passa a ter um caráter real e objetivo livre de qualquer dogma religioso, apenas respeitando as regras ritualísticas. Uma verdadeira experiência subjetiva, que se regula com as normas objetivas da vida, não é à toa que a Ayahuasca e seu ritual são feito desde tempos imemoriais, sempre se multiplicando em diferentes correntes e níveis religiosos.